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entre livros | 28/12/11 Poesia da poesia Jornal Já a partir da estreia, com A respiração das vértebras (2001), João Rasteiro conquistou um lugar de destaque na poesia portuguesa contemporânea. O leitor brasileiro, sobretudo o habituado à poética do rigor e à voz inenfática, postas a circular por João Cabral (tendência dominante, entre nós, nas últimas décadas), talvez estranhe a voluptuosidade com que os versos brotam, sem cessar, da poderosa imaginação verbal do poeta deste Tríptico da súplica. Tudo aí parece regido pelo ímpeto desabalado das sensações em liberdade e das associações inusitadas, quase sempre de forte impregnação visual, verdadeiro magma de palavras onde por vezes fulguram iluminações como “a boca das chuvas”, “a ortografia das águas”, “a morte é lilás como o amor” ou “A cidade meteu-se toda para dentro / o sexo descoberto / transformada em réptil de hálito branco”. A “chave”, se for preciso alguma, é o leitor deixar-se levar pelo aliciante fluxo de imagens e não fazer questão de cobrar, dos poemas que vai lendo, o sentido enigmático da torrente que os enforma. A poesia de João Rasteiro pede a conivência do leitor que se deixe entusiasmar (estar com um deus dentro, como reza a etimologia), disposto a enfrentar a vida como aventura do espírito, e não a objetividade do leitor analítico, distanciado, em sua busca obsessiva de explicações racionais. O resultado será vivenciar “a profecia dos poetas eclodindo como castigo celestial”, sem receio de proferir “a blasfêmia redentora da utopia”. Este Tríptico, já se vê, deita raízes na tradição bíblica do Eclesiastes e do Apocalipse de São João; flerta com o romantismo visionário de um Blake ou um Novalis; e não esconde sua afinidade com esses “chercheurs d’aventures” que são os surrealistas, empenhados em desvendar, mais do que uma nova poesia, o novo homem – “criador e criatura” – prestes a emergir das ruínas desta civilização castradora. Se ainda assim o leitor insistir em encontrar um sentido que lhe satisfaça a necessidade de explicações, não será difícil. A despeito da variedade de suas referências e alusões; a despeito da variedade de seus timbres e soluções formais; este Tríptico (na verdade, três livros autônomos, reunidos num só volume) incide, nas suas três seções, em um tema único: a própria poesia. João Rasteiro nos dá um marcante exemplo de poesia da poesia, daquela espécie que Heidegger, a partir de Hoelderlin, diagnosticou como a mais necessária em “tempos de penúria” como o que vivemos. E no centro irisado de sua combustão verbal, a figura do poeta, a pregar o “desregramento de todos os sentidos”, com vistas a propiciar a “verdadeira vida” sonhada por Rimbaud. Nota: Prefácio do livro Tríptico da Súplica Ver mais